Daquelas coisas que meio definem

Homem flutuando no mar

Nunca fui feliz
Nunca fui triste
Habito onde as sereias dormem serenas
Num sonho dentro de outro sonho

Paro e vejo seus cabelos suspensos
Sublimes e infinitos
Como algas em rotação sem eixo exato

Suas penteadeiras, vazias
Aguardando uma face, um busto, que seja,
Um símbolo, um sentido, um adorno
Um silêncio corroído
Uma âncora escamada de ferrugens
Um ídolo

Ali
Na quietude das coisas suspensas e dos mistérios suprimidos
Pousa toda a minha vida
Essa eterna incapacidade confessa
Alheamento externo
Permanente caça de vaga lumes internos

Eu, arranjo de fluidos e marujo imponderável
Giro quieto e lento nas funduras de gruta
Entre seres marinhos e monstros milenares:
A morte, o medo, o sonho, a intenção
O amor, a sorte, a falta de paz,
O excesso de mares, o adorno secreto dos que,
Em silêncio azul,
Se emaranham nas redes de consciências

Giro
Giro lento e calmo em todo retrato em que poso
No panorama quieto, e pouco, e insano
Sem parear
Sem palmear
Sem pestanejar
Desperto a possíveis mundos
Habitando sempre o mesmo volume de águas

Vago um volume líquido
Ocupo outro, flutuando
No espaço de não ser, no tempo de não se ter
Sem me ater a nenhum atol

Nesse lugar
Dormem sereias desdentadas
Imersas no sonho azul e com língua ainda seca
Do último beijo.

10/06/2014

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