Mímica do cio

Folhas se desprendendo de uma árvore

Que sofreguidão!
Meus pais a um pé do abismo
O filho cresce sem minha mercê

Pra que saber de escuridão?
Os olhos dele serão mar
Quando os meus forem sertão!

Nada que eu esboce ou faça
Será redimido ou retratação
À peneira vazam estrelas claras
Retém-se um escuro com poucos vãos

Na sala onde moro
Um espelho, bafos de fantasmas
E estranhas letras feitas à mão

O espírito se rasga qual pano roto
Aos poucos
Aos poucos

Ouve-se o som da madeira crepitando
Descubro: são meus pobres ossos
Se queimando
De remorso

Vivo desconheço estranho
Quem se desenha no espelho. Um espanto
Tentando dirimir palavras não feitas
E tantas perguntas retóricas
Na sala alegórica

Amo em torvelinhos de outonos
Ponho uma reticência pavorosa
Imprecisão de fumaça em renitência
De se fazer ou desfazer

[Tanto espaço: pra quê?]
Meus olhos estão num corredor
Longo estreito com cotovelos
De ser, ir, ficar e não for
Nele me perco de dia e me camuflo na dor

[Quem me protege das folhas das árvores?]
A flor mais bonita é vermelha e castanha
Um firmamento fértil onde o dia se acanha

Ali o amor sempre o amor
Não mais dói, estranha ou se precavi
Por ser prescrito eternamente à tarde

Quando amortece folha antiga e cara
Que delicadamente cai, rara,
Tremendo de frio

Ao estranho som de asas ritmadas

Uma mímica de cio.

04/12/2013

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6 comentários sobre “Mímica do cio

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