A íris está perdendo a cor do mar

Estátua de anjo de costas

O sol descama os dias
Ouço o som de unha de adaga fazendo ranhuras nas horas malditas
Trinco meus dentes amarelos e serrilhados
Por tanto roçar em mármores glaciais

Ontem alguém deixou de sofrer e amar
Está frio mas ele não sente
Está alheio às sensações térmicas e à textura da mão que
Ternamente alisa sua face e quis dormir pela última vez ao seu lado
Nem mais sente a pressão do granito sobre seu corpo flácido
Prestes a se desmanchar na eternidade de um grito rígido

Ali estava ele
E seu nariz pontiagudo e ereto aponta para um estranho zênite
Frisando o véu branco rendado, o cume de uma montanha infeliz

Em suas narinas, um par de flocos de nuvens sela o hall de toda esperança
Sua face plácida e calma perturba-me os sentidos
Faz tremer meus ossos embebidos nas vísceras carmins

Máscaras pousam sobre a face serena e imensa em terror
O rosto do meu pai, da minha mãe, de meus irmãos, de um amor
E descubro que saudade é verbo sem tempo externo

Sinto profunda saudade do futuro
Choro pela flor que ainda preserva seu viço
Pela saia pregueada sem remendos
Pelas mãos plásticas que se debatem contras ares cáusticos

O talo da rosa está copado
E as palmas de alegria são culpadas pela tristeza do caule decepado

A íris se desbota
Quando a pupila não se contrai.

08/09/2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s