O tamanho da flor

Mãos tocando levemente uma flor murcha

Acordo no escuro
Olhos empapuçados, mãos em descordo,
Tronco abrupto num ângulo agudo

Brinquedos quebrados, bonecas sem berço
Galhos ranhetas de minha mãezinha
Que se contorce presa ao que logo acontece
No vale caduco

As flores, as flores
Hélices que empenam
Pipas que não empinam por falta de ventos

E as aves, todas elas se foram
Só vive o grito grave do cuco

O amor não resiste a intempéries exatas
Do tempo, do tempo sem prumo

Desenhando brevidades nos ares
Descascando a pele das árvores

Deus, Deus, Deus, meus irmãos, minhas carnes
Com arcada incompleta e flores em punho
Riem
Meia boca
Meias molhadas nas gavetas das vistas
Tentam provar que um mais um dá sentido
E que teia de aranha é amor assertivo

São eles, são elas
Lembranças de pedra ante bustos antigos
Com um par de mãos invisíveis e frágeis
Quais bandeiras brancas às pazes com sonambulismo íntimo
Mimetismo crônico no muro de contenção
Onde a morte em gozo de contração
Se ocupa em granitos polidos

É isso, é isso
Que me instiga um molde robusto
Imagem espessa
Antiga cantiga sobre mármore de mesa
A soberba da vida em ser fina, em ser bruta

{O talo é tão longo
A flor é tão curta}

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