O vaso de flores, a janela, a senhora da varanda

Paul Gauguin - Vase of Flowers and Window - 1896

Nada espero dessa vida
A não ser o instante que se empoleira como beija-flor sem sentido
E se vai, e logo o esqueço
Não distinguindo o depois do seu antes

Nessa moldura de esquadro imperfeito
Abro as mãos como asas de pequena envergadura
Evito os olhos do relógio
Insisto no óbvio que se desalinha à fronte

Ali, logo ali sobre o monte
Mora uma família sob a casa de tijolos marrons
Duas crianças, uma velha , um casal infeliz
Destoando da paisagem redentora que sempre me quis
Satisfeita apenas por conseguir vê-la

Já cansei do amor que me roubou cata-vento de horas
Não creio nos girassóis
A vida me pôs sobre um muro e me fez ser coberta de heras
Só para me ter rente às possíveis flores, contá-las, não contê-las
Me livrando do peso de ser contida

Em frente da sacada com arabescos férreos no fim de tarde,
Pouso levemente um livro,
Um segredo,
Um jarro de flores diversas
Que remontam amores laminados

{Nunca me disseram que as flores eram tão belas
E tão absurdamente tristes}

Afunilo seus caules esguios na boca do jarro de linhas suaves
Costuro minha boca com fios de prata
Tudo fica perfeito

A paisagem,
A paragem,
O estio de uma tarde de soberba turquesa,
O livro,
O medo,
O segredo,
O jarro suave,
A beleza de flores diversas em traços bruscos e coloridos

Minha vida é assim, esse olhar de pedra com liquens
O canto de um canário com farpas
A força de canteiro ferido.

Inspirado na obra de Paul Gauguin – Vase of Flowers and Window – 1896.

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