Crônica de um dia chuvoso como outro qualquer

Janela fechada em dia de chuva

Meus olhos se perdem onde os dos outros se mesclam em pano de fundo de tempo vazio
As calhas de onde pinga o resquício da chuva têm algo de misterioso e volúvel
As telhas em nuances secas e molhadas sintetizam algo de verdade sobre as sombras das sinas
As últimas gotas da chuva são diversos sinos assinando fins e afins

O som das corredeiras me leva ao cume da única igreja da cidade pouca
Cuja torre mede tempo e tempo, e morte e vida, e véu e cama vazia
E me sinto estranhamente só mesmo vestido das memórias de amor e paz
Toda água é companhia das solidões insistentes

A cadência do temporal repentino é sinal de súbitos
Das saliências e reentrâncias do relevo que desnivela a amostra de tempo que chamamos de vida
A lágrima da rosa sem projeto é esporádica e, se vista de perto, é lente de aumento das nervuras que compõem toda a delicadeza que lhe é antítese
As estruturas que desenham o vidro da janela são as marcas de afluentes que escavam o tempo sobre a tez que resiste à erosão derradeira

Toda síntese esconde uma rede analítica de contragosto e contrassensos
E nas fronteiras entre nuvens, sol e céu reside um espaço de contemplação furta-cor

O mistério que a poesia amplia
Enquanto a carne vaza.

22/01/2013

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