Dois pontos da sentença

Mulher em frente a um grande relógioAcuso o ponteiro,
Compenetrada seta,
Feita de água e terra,
De ser alheio.

Seta que vai sem arco
Espelho do banheiro
Ante a boca fedida de bafo
No afago da manhã ferida de hoje,
Tão ontem, tão amanhã…

É ele quem a porta bate
E badala a ladainha das senhorinhas mortas
Frescas, frias, mesmas.

É ele quem embala o sótão
E sugere aos fantasmas órfãos do porão
A sempre arrumação:
Um abajur, uma cama de solteiro,
Um abacateiro, o retrato da família perfeita
Em fractal.

O ponteiro é marca-passo
Marco de fracasso
Passo que encadeio, cadência de cadeia,
Cadeira de balanço.

Dois pontos da sentença em que me lanço
Entre horas e minutos sem viseira
No relógio digital.

 

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